sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Pequena Crônica da Perversidade

Já era verão e nós, garotas, íamos para a universidade com os vestidos mais leves que conseguíamos e, às vezes, com os mais curtos.

Mas ninguém parecia estranhar o fato que se repetia sazonalmente de acordo com o desespero imposto pelo calor daquele ano. E nossas pernas à mostra eram quase como a nudez das comunidades indígenas.

Durante a aula interminável de fotografia, que deveria ser uma matéria legal, mas que o professor fazia questão de que não fosse, saí para mais uma de minhas longas idas até o bebedouro.

Fui caminhando aliviada por não ser obrigada a sentir sono todo segundo, mas minha paz acabou rápido demais. Logo antes do meu objeto de desejo, dois trabalhadores da construção civil (os denominados peões de obra) estavam sentados fazendo alongamento.

Observe: o alongamento consistia em mover a cabeça da esquerda para a direita sempre que uma garota de saia, short ou calça cargo que fosse, passasse por eles. O resultado era a vista de uma bunda bem servida e o pescoço relaxado.

Três garotas já tinham sido agraciadas com o olhar sedutor de homens imundos, portadores de discursos evoluidíssimos do tipo ‘essa daí lá em casa...’ e eu sabia: eu seria a próxima potranca a ter o bagageiro avaliado.

Encarei o destino cruel que me foi imposto e atravessei o umbral que me guiaria até a aventura do dia. Portadora de um vestido na altura do joelho, solto no corpo, sabia que a imaginação traçaria o que não estava sendo mostrado. Sabia, no fundo, que para os meus espectadores, estava nua.

Procurei me concentrar em ter o meu alvo alcançado. Pegar minha água, gastar o meu tempo, voltar só pra chamada no final da aula. Procurei me lembrar de todas as vantagens em não me deixar envolver pelo ambiente, em não ficar chateada hoje, em voltar para casa cheia de ânimo para continuar saltitante todo o resto da minha vida.

Procurei manter a calma. Mas...não foi o que aconteceu.

No meio da travessia pornográfica, quando já tinham escolhido para mim uma tatuagem na bunda, eu resolvi me manifestar. Virei o corpo e apresentei aquilo que eles menos esperavam: meu rosto com a cara de raiva que as esposas deles devem ter.

Para meu espanto, o cara da direita gostou dos meus olhos e me encarou durante um longo minuto. Essas foram suas últimas palavras mudas.

– Oi, vocês tão fazendo que obra aqui? – eles entraram em êxtase quando perceberam que eu realmente sabia que eles existiam.

– É a obra do CIC aí embaixo.

– Obrigada. – e mostrei minha bunda uma última vez para os desgraçados.

Desci as escadas para a coordenação de Computação e, depois de me perder três vezes, achei os meus salvadores.

– Oi, eu queria fazer uma reclamação. O pessoal que tá trabalhando na obra com vocês tá ficando parado lá em cima, olhando descaradamente para todas as garotas que passam.

Pasma, ouvi a resposta da mulher que me ouvia:

– Olha a gente não pode fazer nada. Eu sofro com isso todo dia também, mas eles são assim né... (voz nojentinha)

Percebi que essa já era uma alma conquistada para o mal e fui direto à coordenação de Comunicação para receber alguma ajuda dos meus representantes do poder.

– Mas eles são assim mesmo. Não dá pra conversar com essa gente.

De verdade, queria saber por que um funcionário da limpeza, que às vezes mora na casa ao lado desse peão de obra, não se comporta dessa forma e o vizinho que ergue vigas tem todo o direito de ser um grande panaca.

– Mas vocês não poderiam pelo menos falar com o mestre de obras?

Mas meu sofrido coração sabia que não valia a pena continuar aquela conversa. Se o pessoal da coordenação nem se esforçava para fazer um documento sair mais rápido, pedir para que um deles gastasse mais massa cerebral em meu favor era quase impossível.

– Obrigada viu. Feliz Natal adiantado.

Nessa mesma hora, uma multidão barulhenta se abrigava na entrada norte. Uma pessoa da minha turma de outra disciplina veio na minha direção e disse que tava todo mundo pelado.

Opa! Era minha chance de pelo menos me ocupar até o fim da aula de fotografia e tentar desestressar.

Cheguei ao mafuá e vi que era uma manifestação. As garotas estavam sem blusa e sutiã, com frases como ‘meu corpo é meu’ escritas com tinta nas suas barrigas e os garotos estavam de cueca ou completamente nus.

– A UnB se revolta contra o caso da estudante da Uniban, que foi expulsa da faculdade, depois de ser chamada de puta pelos corredores, por portar um vestido curto.

Um outro pelado falou:

– Nós não podemos deixar esse caso passar em branco. Nós não podemos deixar que um absurdo desse seja esquecido. Porque é isso que vai acontecer.

Me senti completamente compreendida pela causa e logo, logo eu já estava cantando “Vem pra luta, vem, contra o machismo. Veeeem. Veeem”, enquanto o bolo de gente cruzava o minhocão até a entrada sul.

– Esse povo não gosta de estudar mesmo – disse um garoto que assistia ao Retorno de Jafar no CA de Física.

Chegamos à entrada sul, onde mais pelados fizeram discursos contra o caso Uniban.

– Nossa, se fosse minha filha, eu batia – disse uma mãe de uns quarenta anos que passava por ali com cara de nojinho.

– Esse povo não tem mais o que fazer. Nem foi aqui que aconteceu. O que a UnB tem a ver com a Uniban?

– Ela tava querendo chamar a atenção pra ela, aquela garota da Uniban.

– Tava pedindo pra ser estuprada!

Já com a tampa da testa fervendo de raiva, virei para a pessoa absurda que tinha acabado de gritar a última baboseira.

– Olha, deixa eu te falar uma coisa. Você quer que esse seu cabelo escovado até a bunda e esse decote que você usa sejam interpretados como um convite para um estupro? Porque eu tenho certeza de que alguém poderia fazer essa interpretação. Então, a não ser que você esteja disposta a ajudar a mudar a mentalidade atual, acho melhor você não sair mais de casa, que deve ser um lugar mais seguro.

Ela levou um susto tão grande que nem conseguiu me responder. Provavelmente, pensou que o seu grito meio fraco não seria ouvido por ninguém que realmente se importasse. Provavelmente, ela pensou que jamais seria julgada da mesma forma que a estudante da Uniban o foi.

Provavelmente, ela ficou com muita preguiça de pensar qualquer coisa.

Talvez, porque ela não entenda que deve haver solidariedade entre as pessoas.

Talvez porque ela não saiba que o que acontece com o outro, um dia, vai chegar até você.